BRUNA ALCANTARA

REFLITA-SE I BIENAL DE CURITIBA, 2026 I GALERIA MÚLTIPLO
Reflita-se é o convite que Bruna Alcantara propõe nesta série de foto-performances produzidas nos últimos seis anos. Ao longo de viagens por diferentes cidades dos estados do Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, a artista buscou olhar ao redor, através de espelhos.
Fotografia, bordado, colagem e garimpo de objetos são traços marcantes nas obras de Bruna, em que a presença feminina é colocada a serviço de debates, ao explorar traumas e violências da cultura patriarcal. Na série Reflita-se, os espelhos são o elemento simbólico que a artista utiliza para abordar questões do feminino e dos impactos ambientais causados pelo homem em um mundo cada vez mais colapsado.
Nessas imagens, Bruna não dá as caras, mas dirige as cenas e aquilo que veremos como reflexo de sua presença. Performando um ser-espelho, a artista devolve ao olhar não uma identidade, mas uma paisagem. Em meio a cenários de beleza abundante, onde também emergem marcas discretas de exaustão e degradação, o campo visual se amplia para aquilo que escapa à superfície. O espelho revela e oculta: mostra apenas um fragmento, mas sugere um horizonte maior, instável e em transformação.
Ao longo da exposição, os espelhos encontram paredes vermelhas que atravessam o espaço como uma espécie de contracampo simbólico. O que se anuncia ali não é exatamente o fim do mundo, mas o esgotamento de certas narrativas que se apresentam como universais. Por trás do reflexo, entre o vermelho da matéria, da carne e do alerta, entrevê-se a falência de estruturas de poder, teorias e instituições historicamente construídas sob perspectivas masculinas de domínio, as mesmas que nos conduziram ao atual colapso ambiental.
O espelho não oferece respostas nem verdades; ele devolve perguntas. Refletir torna-se, então, um exercício de imaginar o que pode surgir quando aquilo que parecia inabalável começa a ruir.
Ao olhar para este ser-espelho registrado por celulares, câmeras fotográficas e drones, não vemos nosso próprio reflexo, mas as fissuras do mundo. Refletir aqui é olhar para trás, para os escombros de determinadas certezas e ensaiar outros futuros possíveis.
A exposição Reflita-se apresenta esta série de fotografias pela primeira vez em Curitiba, na sala da Múltiplo, como parte da programação da Curitiba Art Week, da 16ª Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba.
Giuliana Teles, curadora.








