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MUMS ALSO CUM I GALERIA FISGA (PT) I CURADORIA BIA PETRUS

MÃES TAMBÉM GOZAM é a bandeira da artista brasileira Bruna Alcantara. Um dos caminhos para interagir com algumas provocações artísticas é, no primeiro embate, descrever o que está diante de nós e em que contexto. A partir desta entrada inicial, baseada em uma ação racional de observação atenta, abrem-se caminhos para outros entendimentos.

 

RIO DE JANEIRO 2022. A bandeira de Bruna Alcantara está pendurada numa fachada. A bandeira é cor de rosa com letras vermelhas enormes. É maior do que nós. Nos faz levantar os olhos e ainda inclinar um pouco a cabeça para cima. Pelo menos dez graus, a fim de nos posicionarmos melhor para a leitura. Agora, estamos de cabeça erguida a ler “MÃES TAMBÉM GOZAM”. A posição da cabeça certamente influencia os julgamentos sociais de dominação do sistema em que vivemos. A artista nos provoca. Nós interagimos. Bruna não nos dá muitas opções no que se refere à decisão de ler ou não ler o que ela tornou bandeira. Antes de podermos escolher, já lemos. E se somos mães, tornamo-nos cúmplices. De cabeça erguida. Que frontalidade!

 

E o que tem de tão frontal em algo mais do que sabido por todas as pessoas desde sempre? O que está frontalmente exposto e o que vemos por trás dessa bandeira? Todo gozo requer entrega. Uma leitura de um trabalho de arte requer entrega. Não vamos levar nada se não oferecermos nada. Pisar num chão incerto, que de pronto parece ser o que não é, exige muito de nós. Para usufruir daquilo que está diante de nós, temos de tirá-lo da nossa frente e deixarmo-nos ser atravessados pela experiência de desestabilização que se coloca.

 

Bruna chegou ao Porto em 2014 para fazer o mestrado. Grávida. Imigrante. Foi conhecendo as pequenas violências diárias nos mais diversos lugares sociais por onde se moveu. E as grandes também. Foi aqui que conheceu o fenômeno da violência obstétrica. Seu trabalho, que contém múltiplas leituras, refere-se ainda a mais uma luta feminista importantíssima: o direito de ser informada sobre qualquer intervenção no seu corpo durante o parto. O respeito aos saberes femininos que cada mulher herda, constrói, incorpora durante sua existência. Antes mesmo de ser mãe, cada mulher traz os mais preciosos conhecimentos de si mesma e prepara-se para o ato de parir ainda em estado de vir a ser. Sabe sobre seu próprio corpo de forma incontestável.

 

No contexto de crise das democracias representativas contemporâneas, dá-se o crescimento do extremismo político de direita e seus discuros e práticas autoritárias. Por exemplo, as ruas são cada vez mais vigiadas. As práticas espaciais estético- políticas, se proliferam como resposta aos danos em curso das práticas do neoliberalismo e ao crescimento dos movimentos reacionários. São respostas- táticas que fazem parte das estratégias dos oprimidos. “Mães Também Gozam” vai além do manifesto até tocar no gozo e, antes ainda, no desejo. E o desejo é a matéria fundamental para suportarmos estar e permanecer em estado de incertezas. Experimentar a mobilidade das ideias e conceitos até as bordas do que está estabelecido.

 

PORTO 2024. Dessa vez a bandeira está à mostra numa montra. Nessa montagem, apesar de um pouco mais resguardado, “MÃES TAMBÈM GOZAM” permite-nos ver outras camadas deste trabalho que articula questões da maternidade, feminismo, gênero, sexualidade, ativismo, corpo político. A poética da artista-jornalista Bruna Alcantara, que iniciou sua carreira de artista visual a partir de uma intensa-curiosa revisão do arquivo pessoal de fotos familiares, é a expressão de sua “indignação e revolta” no que se refere à situação das mulheres. Bordar e costurar fazem parte do seu processo, assim como a prática do “lambe”, da fotografia, colagens e outros recursos que emergem de sua indignação e se transformam em posicionamento necessário e urgente no seu entendimento.

 

As diversas camadas de violência obstétrica a que Bruna foi submetida em 2015, na ocasião do parto acontecido na cidade do Porto, levaram anos a serem trabalhadas internamente pela artista. Imagens em grande escala colocadas nas ruas configuram sua resposta-luta, formando um conjunto de imagens que circulam em espaços públicos e privados, mais ou menos institucionalizados. Bruna vai invadindo o cotidiano com seus gritos, traumas, incertezas e gera um movimento circular, sem começo nem fim de perguntas-respostas-perguntas que não cansarão de se refazer.

 

A forma como a bandeira é mostrada neste espaço, permite que vejamos a costura do avesso, o que nos remete – nós, no caso, um número significativo de mães - a uma costura pós episiotomia, uma ferida que nos é oferecida-imposta sob a falsa promessa de facilitar o parto. Uma costura que também remete a bocas fechadas, a amarras impostas, a dores caladas.

 

Por fim, refazemos a pergunta que sempre se recoloca: O que há de indisciplinado ou de transgressor em afirmar que mães também gozam? Este trabalho poderia ser proibido quando proposto a uma instituição de artes? Por quê?

 

Bruna confronta o espaço público e grita alto. Seu grito faz parte do combate ao sistema de dominação em que vivemos. Um grito, segundo ela, que vai da dor ao prazer e do prazer à dor. Como sabido, uma espiral de opressões e violências sem começo nem fim.

Bia Petrus, curadora. 

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